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Proporção de tela

A proporção de tela é a forma do retângulo: por que armazenamento e exibição podem diferir, como pixels não quadrados e lentes anamórficas reconciliam os dois, e o que acontece quando proporções não coincidem.

Alfredo Neto4 min de leitura
Sumário (7)

A proporção de tela é a terceira propriedade fundamental da imagem e a mais puramente geométrica delas. Enquanto a Resolução descreve quantos pixels existem e a Taxa de quadros descreve quantos quadros há por segundo, a proporção de tela descreve apenas a forma do retângulo: a razão entre sua largura e sua altura. Este artigo trata dessa razão — como é expressa, por que armazenamento e exibição nem sempre coincidem, quais são as proporções padronizadas e o que acontece quando uma proporção precisa caber em outra.

O que é proporção de tela

A proporção de tela (aspect ratio) é a razão entre a largura e a altura da imagem. É uma grandeza adimensional: não diz nada sobre o tamanho da imagem nem sobre quantos pixels ela tem, apenas sobre seu formato.

Daí decorre sua independência em relação à resolução, já antecipada em Resolução: 1280 × 720 e 1920 × 1080 têm contagens de pixels muito diferentes, mas a mesma proporção, porque 1280/720 = 1920/1080 = 16/9. A proporção é a razão; a resolução é a contagem.

Há duas notações em uso. A primeira exprime a razão como dois inteiros, no formato largura:altura4:3, 16:9, 9:16. A segunda, herdada do cinema, normaliza a altura em 1 e exprime a largura como um decimal — 1,33:1, 1,78:1, 2,39:1. As duas dizem o mesmo: 16:9 é simplesmente 1,78:1 com a altura normalizada.

Proporção de armazenamento, de pixel e de exibição

A definição acima esconde uma suposição que nem sempre é verdadeira: a de que cada pixel é um quadrado. Quando ele não é, uma única imagem passa a ter três proporções distintas, e confundi-las é a principal armadilha do tema.

A proporção de armazenamento (storage aspect ratio) é a razão da grade de pixels tal como gravada — simplesmente largura dividida por altura em pixels.

A proporção de pixel (pixel aspect ratio) é a forma de cada pixel individual. Quando vale 1, os pixels são quadrados; quando difere de 1, são retângulos.

A proporção de exibição (display aspect ratio) é a forma da imagem como o observador a vê, depois de cada pixel assumir seu formato real. É esta que importa visualmente.

As três se relacionam por uma identidade simples:

proporção de exibição = proporção de armazenamento × proporção de pixel

Com pixels quadrados, a proporção de pixel é 1 e as proporções de armazenamento e exibição coincidem — o caso intuitivo. Mas o vídeo de definição padrão é um contraexemplo histórico importante: o formato 720 × 480 (NTSC) tem proporção de armazenamento 1,5, e ainda assim era exibido em 4:3 (1,33). A reconciliação vem de pixels não quadrados, com proporção de pixel de cerca de 0,9 — "altos e estreitos". O mesmo arquivo, com pixels de proporção ≈ 1,2, era exibido em 16:9. A grade de pixels é idêntica; o que muda é a forma atribuída a cada pixel na exibição.

O anamorfismo é o mesmo princípio aplicado pela óptica em vez do pixel. Uma lente anamórfica comprime horizontalmente uma imagem larga para que ela caiba num quadro mais estreito durante a captação; na projeção ou no processamento, uma descompressão inversa restaura a largura original. O cinema scope clássico usava uma compressão de 2×: uma cena de proporção ~2,39 era gravada espremida num quadro de proporção próxima de 1,2 e esticada de volta na tela. Pixels não quadrados e lentes anamórficas são, conceitualmente, a mesma ideia — armazenar a imagem em uma proporção e exibi-la em outra — resolvida em domínios diferentes. O tratamento óptico das lentes anamórficas pertence ao artigo Lente; a sinalização da proporção de pixel nos metadados, ao artigo Container.

Proporções padronizadas e origens

Como as taxas de quadros, as proporções padronizadas têm origens identificáveis.

4:3 (1,33:1) foi a proporção do cinema mudo e, por herança, da televisão analógica durante quase toda a sua história. Sua variante de cinema, a proporção Academy de 1,37:1, surgiu nos anos 1930 para reabrir espaço ao quadro depois que a trilha sonora óptica passou a ocupar parte da película.

16:9 (1,78:1) é o padrão da televisão e do vídeo de alta definição. Não é herança de nenhum formato anterior, mas um compromisso deliberado: ao sobrepor, com áreas iguais, os formatos extremos em uso — do 1,33 da TV ao 2,35 do cinema — chega-se a uma proporção intermediária que os concilia. O 16:9 é, em essência, a média geométrica dos extremos (a raiz do produto de 1,33 por 2,35 está muito próxima de 1,78), o que minimiza o desperdício médio ao exibir qualquer um deles.

No cinema contemporâneo convivem principalmente duas proporções de exibição: a 1,85:1 ("plana") e a 2,39:1 (anamórfica ou scope, historicamente 2,35:1). Mais recentemente, a verticalização das telas de celular tornou comum a proporção 9:16, e plataformas sociais popularizaram formatos como 1:1 e 4:5.

Quando as proporções não coincidem

Como a proporção da imagem e a do dispositivo de exibição são independentes, é inevitável que com frequência não coincidam. Há apenas três respostas geometricamente possíveis a esse descompasso, e toda solução prática é uma delas ou uma combinação.

A primeira é preservar a proporção da imagem e preencher o resto com barras. Imagem mais larga que a tela ganha barras horizontais acima e abaixo (letterbox); imagem mais estreita ganha barras verticais nas laterais (pillarbox); e uma imagem menor em ambas as dimensões fica cercada de barras nos quatro lados (windowbox). Nenhuma informação é perdida nem deformada; troca-se área de tela por integridade.

A segunda é recortar a imagem para preencher a tela (pan and scan, na sua versão clássica). A proporção é preservada, mas as bordas que excedem o quadro de destino são descartadas — perde-se conteúdo nas extremidades.

A terceira é deformar a imagem para forçá-la à tela, alterando sua proporção. É a origem do erro mais visível do tema: interpretar uma proporção de pixel errada estica ou achata tudo na cena. Não se perde área nem conteúdo, mas a geometria fica falsa.

Preservar, recortar ou deformar: as três trocam coisas diferentes, e a escolha entre elas é sempre um compromisso entre área de tela, conteúdo e fidelidade geométrica.

O que a proporção de tela não é

Não é a resolução

São propriedades ortogonais. A resolução é a contagem de amostras; a proporção é a forma do retângulo que as contém. Resoluções diferentes compartilham proporções, e uma mesma proporção admite infinitas resoluções, conforme já estabelecido em Resolução.

Não é o tamanho físico

Sendo adimensional, a proporção nada diz sobre dimensão. Um quadro 16:9 tem exatamente a mesma proporção na tela de um relógio e em um painel de cinema; o que muda entre eles é o tamanho — e, como visto em Resolução, a densidade de pixels — nunca a forma.