Pular para o conteúdo
Bancada
Sobre
Vídeo / Fundamentos

Faixa dinâmica

O eixo do brilho da imagem: o que é faixa dinâmica medida em stops, a função de transferência (gama, OETF/EOTF), e o que realmente distingue SDR de HDR — sem confundir com profundidade de bits nem com gamut.

Alfredo Neto6 min de leitura
Sumário (8)

Os artigos sobre cor trataram de quais cores a imagem representa; falta tratar de quão claras ou escuras elas podem ser. Essa é a faixa dinâmica — o eixo do brilho —, e ela fecha o bloco de propriedades fundamentais da imagem. Foi deliberadamente reservada para o fim porque depende de tudo o que veio antes: da quantização (Profundidade de bits), da separação entre brilho e cor (Luminância e crominância) e, sobretudo, da função de transferência apenas mencionada em Modelo e espaço de cor. É aqui que essa função finalmente se explica.

O que é faixa dinâmica

A faixa dinâmica é a razão entre o ponto mais claro e o ponto mais escuro que um sistema consegue distinguir simultaneamente. Não é um nível de brilho, e sim uma amplitude: a distância entre o branco mais intenso e o preto mais profundo em que ainda há detalhe.

Por ser uma razão, a faixa dinâmica é naturalmente medida em escala logarítmica. A unidade usual em imagem é o stop: cada stop corresponde a uma duplicação da quantidade de luz. Uma faixa de dez stops significa que o ponto mais claro emite cerca de 2¹⁰ — pouco mais de mil — vezes a luz do ponto mais escuro. Quem vem do áudio reconhecerá a lógica, idêntica à do decibel: uma medida relativa, logarítmica, de uma razão entre dois extremos.

A questão central do tema é que os extremos diferem drasticamente entre o que existe, o que se captura e o que se exibe.

048121620faixa dinâmica (stops, escala ilustrativa)Cena de alto contraste~20+ stopsCâmera moderna~14 stopsExibição HDR~14–17 stopsExibição SDR~6–10 stops

Uma cena de alto contraste — interior com janela ensolarada, paisagem com o sol no quadro — abrange facilmente vinte stops ou mais. Uma câmera profissional moderna registra algo em torno de quatorze. Uma tela tradicional reproduz entre seis e dez. Toda a engenharia da faixa dinâmica consiste em mapear uma amplitude em outra: comprimir o mundo no sensor, e o sensor na tela, com o mínimo de perda perceptível.

A função de transferência

O elo que falta entre a luz e os números é a função de transferência: a curva que define como uma intensidade luminosa vira um valor de código e vice-versa. Ela é a peça que Modelo e espaço de cor anunciou e adiou.

Há duas pontas. A da captação, que converte a luz da cena em código, é a OETF (função de transferência óptico-eletrônica). A da exibição, que converte o código de volta em luz na tela, é a EOTF (função de transferência eletro-óptica). Idealmente, uma desfaz a outra.

A razão de a curva não ser uma reta é perceptual, e conecta-se diretamente a Profundidade de bits. A visão humana é muito mais sensível a diferenças nas regiões escuras do que nas claras: distinguimos com facilidade dois tons quase pretos, mas mal notamos a diferença entre dois quase brancos. Distribuir os valores de código de forma linear desperdiçaria níveis nas altas luzes, onde o olho não os cobra, e os faltaria nas sombras, onde eles são necessários — surgiria banding justamente nos escuros. A função de transferência corrige isso curvando a relação, de modo a gastar mais código onde a percepção é mais fina.

0.00.00.20.20.40.40.60.60.80.81.01.0luz da cena (normalizada)valor de código (normalizado)LinearGama (SDR)HLGPQCurvas mais abauladasdedicam mais códigoàs regiões escuras.

A curva clássica é a gama, herança direta da televisão analógica. O tubo de raios catódicos respondia à tensão de entrada por uma lei de potência — sua luz crescia aproximadamente com a tensão elevada a 2,2 ou 2,4 —, e as câmeras passaram a aplicar a curva inversa para compensar. Por acaso feliz, essa inversa coincidia de perto com a forma como o olho distribui sua sensibilidade, de modo que a gama sobreviveu ao tubo que lhe deu origem por ser, antes de tudo, perceptualmente eficiente.

SDR e HDR

A faixa dinâmica padrão (SDR, standard dynamic range) é o sistema construído em torno dessa herança: a curva de gama, uma referência de branco em torno de 100 nits — o nit (candela por metro quadrado) é a unidade de luminância — e a faixa modesta que as telas antigas alcançavam. Foi o padrão por décadas.

A alta faixa dinâmica (HDR) estende os dois extremos: brancos muito mais intensos, na casa dos milhares de nits, e pretos mais profundos, ampliando a faixa para além do que a gama foi projetada para descrever. Isso exigiu novas funções de transferência. Duas se firmaram. A PQ (Perceptual Quantizer) é uma curva absoluta — cada código corresponde a um nível físico de luminância, até 10.000 nits — desenhada sobre o limiar de contraste da visão humana; é a base de formatos como o HDR10 e o Dolby Vision. A HLG (Hybrid Log-Gamma) é uma curva relativa, que combina a gama tradicional nas baixas luzes com um trecho logarítmico nas altas, de modo a permanecer razoavelmente compatível com telas SDR — uma escolha pensada para a radiodifusão.

No gráfico acima, é a forma das curvas que importa: todas dedicam mais valores de código às regiões escuras (por isso sobem rápido à esquerda), e a PQ é a mais agressiva nisso, refletindo a faixa muito maior que precisa acomodar.

Log e tone mapping

Resta um conceito frequentemente confundido com o HDR: o log. As curvas logarítmicas de câmera — com nomes como S-Log, C-Log, Log-C, V-Log — são funções de transferência de captação, cuja finalidade é espremer a ampla faixa dinâmica do sensor dentro do número limitado de bits do arquivo, preservando detalhe tanto nas sombras quanto nas altas luzes para a pós-produção. É a contrapartida da "margem de manobra" descrita em Profundidade de bits. Material em log parece lavado e de baixo contraste antes de tratado, justamente porque guarda a faixa inteira à espera de ser remapeada. Os detalhes de como o sensor gera essa faixa ficam para Sensor de imagem, e o tratamento posterior, para Color grading.

A operação de levar uma faixa ampla a uma faixa menor — do sensor à entrega, ou de um master HDR a uma tela SDR — chama-se tone mapping. É uma compressão de faixa dinâmica: as informações que não cabem precisam ser dobradas para dentro do intervalo disponível, em vez de simplesmente cortadas, sob pena de perder detalhe nos extremos.

O que a faixa dinâmica não é

Não é a profundidade de bits

Retomando a conflação central de Profundidade de bits: a faixa dinâmica é o tamanho do intervalo entre claro e escuro; a profundidade de bits é em quantos degraus esse intervalo é dividido. São independentes. O HDR costuma vir acompanhado de mais bits, mas não porque HDR signifique mais bits — e sim porque uma faixa maior, subdividida pela mesma quantidade de degraus de antes, teria degraus mais espaçados e exibiria banding. Mais bits são uma necessidade decorrente, não a definição.

Não é o gamut

A faixa dinâmica é o eixo do brilho; o gamut, tratado em Modelo e espaço de cor, é a extensão das cores. O diagrama de cromaticidade daquele artigo abstrai o brilho de propósito, justamente para isolar a cor. São eixos ortogonais: gamut amplo (wide color gamut) e alta faixa dinâmica (HDR) costumam ser vendidos juntos sob o rótulo de ultra-alta definição, mas um existe sem o outro.

Não é apenas brilho máximo

A confusão popular reduz o HDR a "tela mais brilhante". O pico de luminância é só um dos extremos; o que define a alta faixa dinâmica é a amplitude — altas luzes intensas e sombras profundas com detalhe, ao mesmo tempo, na mesma imagem. Uma tela que apenas fica mais clara, sem aprofundar os pretos nem preservar detalhe nos extremos, não entrega faixa dinâmica maior. Vale notar ainda que o "HDR" da fotografia de celular, que funde exposições diferentes para comprimir uma cena contrastada numa imagem comum, é um processo distinto do sinal HDR de vídeo descrito aqui — uma coincidência de nome, não de mecanismo.